
Sem nenhuma convicção, você vai acordando e escuta ao longe uma gargalhada. Neste instante se dá conta de que ainda está neste mundo e do quão esquisito é o ser humano. Pense no quanto é estranha a gargalhada! Mais estranha ainda é esta palavra que em nossa língua nomeia o ato, com raiz proveniente de gargarejo, ou melhor, do som de gargarejar. A gargalhada é mais antiga do que o ato consciente de gargarejar para limpar a voz ou a garganta. Então, depois de tanto gargalhar, o ancestral português gargarejou e chamou de gargalhada o ato de morrer de rir dos outros ou de si mesmo (algo, aliás, bastante recomendável). Tudo esquisitice! Mas, esquisitice mor é acordar pensando nestas coisas só porque se ouviu uma gargalhada perdida na manhã de um certo domingo em que se tem de sair para eleger o Presidente da República.
Não desanime. Você está obrigado a acordar porque viver é preciso. Navegar é que não deve ser preciso. Se você resolve conduzir a vida com muita precisão corre o risco de asfixiá-la. Tome cuidado com as rotinas e com as obrigatoriedades, formas de precisão. Tome cuidado com as manias e principalmente com tudo que lhe seja imposto com rigor e determinação.
O voto é obrigatório. Como fazer, então, se há restrições a todos os candidatos? O problema reside na obrigatoriedade de votar, ou seja, na precisão, na exatidão de conduta cívica que lhe é exigida. Absurda é a lei que dá peso idêntico ao voto em branco e ao voto nulo. Se o voto é obrigatório, o nulo deveria ser considerado uma opção. E, assim sendo, os votos nulos não seriam deduzidos para a obtenção dos votos válidos. Deduzir-se-iam tão somente os brancos. Este seria o critério mais respeitoso à liberdade de cidadania.
Mas, o tema aqui não era a cidadania nem era o voto. Ou era? O tema era a gargalhada? Era o ser humano? Era a rigidez das precisões? Sei lá... O tema é sempre a vida, incluídas a cidadania, a estupidez, as precisões... Incluídos o gargarejo e a gargalhada. O tema pode ser toda sorte de condutas inventadas pelo homem. Tomar remédio para dormir e para acordar, pensar de forma binária, eleger líderes, mandar, obedecer, bajular, criar regras e a mania de seguí-las com renitente rigidez.
Quem será mais sábio? O velho que se confina na rotina e se ajusta no seu lugar, seguindo os padrões sociais exigíveis ou o velho (mais provavelmente a velha) que, no alheamento da demência, se rebela, se nega a tomar banho, repele a lavanda pós-banho e pede urgência para o juízo final?
Oh, que falta nos faz uma natural predisposição para a liberdade! Que falta nos faz vocação inata para nos reinventar, assim como natural, embora esquisito, é o ato incontrolável de gargalhar.



