Sunday, February 03, 2008

Dona Santinha


Infância

Os temporais de fins de tarde, na verdade, brotavam lá no bambuzal que fazia limite aos fundos do nosso imenso quintal.
Nem é preciso fechar os olhos para me ver de cabelos molhados, escorridos, sentada junto aos meus irmãos na murada da varanda dos fundos de nossa casa. Nosso olhar infantil perdia-se na verde e acanhada paisagem suburbana. E como era delicioso aquele cheiro de terra quente a receber do céu torrentes de água benta!
“São Jerônimo! Santa Bárbara!” - gritava minha mãe, a cada relâmpago seguido do estrondo dos trovões. Assustada, corria pela casa, fechando janelas, vistoriando goteiras. Enquanto tomava estas providências, quietinhos, joelhos inevitavelmente ralados, contemplávamos a chuva forte a penetrar na terra. A ventania agitava o pé de amoras, o palácio do faz de conta que eu era... das nossas intermináveis brincadeiras.
Naquela época Jacarepaguá tinha seus encantos.
Os temporais benignos de minha infância mal se comparam com os que hoje gritam o caos de um bairro ampliado na marra, sem “desenhos lógicos”.
A chuva chegava ruidosa ao cair da tarde, mas era, sim, uma espécie de benção. Refrescava a terra, limpava o céu e fazia a festa de uma criançada ainda protegida por famílias até certo ponto coesas. Gente sem capital, mas com plena posse de seus terrenos, de suas mangueiras em generosas sombras, de suas casas simples onde, à noite, a garotada era recolhida, ainda cedo, depois da agitada alegria do pique-bandeira.
A casa do grande quintal onde vivi até os 10 anos não mais existe. Mas minha mãe lá está no velho bairro, encarnando a linha do tempo que me permite transitar do presente à infância, da ficção à realidade e vice-versa. A casa é outra, mas lá resiste, carregada de nossa história, guardando a memória das chuvas, do vigoroso bambuzal e dos primórdios de nossas vidas.
A terra sadia onde brincávamos hoje jaz sob camadas de concreto alinhadas em desordem. O encontro entre o céu e a terra, a chuvarada, a vizinhança, a criançada, os santos invocados por minha mãe, tudo hoje é um fiapo de lembrança em que me apego para trazer ao presente o frescor de um tempo feliz. Que esta lembrança seja motivo de alegria agora e já. Que assim seja, com as benções de São Jerônimo, de Santa Bárbara, de Dona Yemanjá e de Dona Santinha, porque hoje é o dia delas, “Odoyá”!

Rua Albano, 132
02 de fevereiro de 2008.

Wednesday, December 26, 2007

Indagações de fim de ano

Que fascínio é este que Sergiu Celibidache exerce sobre os meus sentidos?
Existe música para além de Johann Sebastian Bach?
De que mais preciso além da música para manter vivo o meu núcleo acumbente?

Wednesday, October 31, 2007

Lispector


Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.


(de Perto do Coração Selvagem)

De mãe para filha


Quero que a minha filha se cuide,
porque o tempo passou e dela não posso mais cuidar.
Nos limites de minha consciência, fiz o que pude.
Hoje, fica um certo sentimento de culpa pelo que não fiz.
Por ter deixado de aprofundar reflexões sobre o que era ser mãe.
Mas hoje também sou grata a mim.
Sim, pensando em meus filhos, devo ser grata às minhas tentativas e às minhas intuições.
Devo ser grata pelo que (me) corrigi, pelo que (me) “eduquei” e por algum bom exemplo que possa ter deixado.
Por meus filhos, sou grata pelo que me cuidei.
Grata por ainda estar aqui e ter em minha história de vida a vida de meus filhos incluída.
Por ter em minha saúde, a saúde de meus filhos incluída.
Deste inusitado pensamento rascunhado em meio ao caminho de ida ao trabalho, devo concluir: toda mãe deve cuidar bem de si. Eis um jeito seguro de também cuidar de sua amada cria.

Comba
Lavradio, em 22 de agosto de 2007

Sunday, June 03, 2007

Morte no sábado

- Vê a senhora o prédio ali adiante, onde há aquelas luzes mais fortes? Uma mulher se jogou lá do alto, faz pouco ... Lá vai saindo a ambulância.
- Morreu?
- O que a senhora acha? Jogou-se do 901!
- Que horror!
A mulher se jogou do nono andar ou foi jogada? A resposta fica para a polícia que até mais tarde, quando voltei para casa, ainda mantinha uma patrulha em frente ao prédio.
Noite feia de sábado, ocasião propícia para o desespero dos deprimidos, pensei - dos oprimidos, como digitei por equívoco ou ato falho. Afinal, a depressão deve oprimir, senão o peito, a alma, o desejo de estar com, o mais remoto sentimento de leveza de ser.
O fato ficou ali sepultado no silêncio da noite de um jeito ainda mais banal que o de costume. Seja porque caia uma chuva fria e insistente. Seja porque a rua permanecia em sua calma habitual, talvez só um pouco mais triste. Seja porque não havia gente aglomerada a espiar e esquecer a própria desgraça diante da desdita alheia. Seja porque a dor do suicida se esvai no gesto e não desperta dó, só perplexidade. Seja porque não faz muita diferença estar desperta na noite escura ou estar adormecida no vôo sem paradeiro, ns brumas da eternidade.

Wednesday, April 11, 2007

...por isso blogo

Escrevo pra me aquecer, pra me esquecer, pra não morrer.
Escrevo porque a palavra escrita me excita, me deixa aflita, mas sem sofrer.
A palavra me faz perder o sono e me lança em insanas aventuras do existir.
Blogo porque a palavra é o meu devir.

Wednesday, April 04, 2007

Mora na filosofia

De autoria de uma pequena de três anos, inventendo música ao acordar:

"Eu sou você de mau jeito."
(em 03/04/2007)

Sunday, March 25, 2007

Evolução (Mario Quintana)

O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.

Friday, March 23, 2007

lição para todo dia

De repente, escuto no ônibus uma conversa de adolescentes. Elogiam as coisas boas do colégio. E uma menina comenta com a outra os cartazes colocados na escada: "mantenha o foco."
A conversa dos meninos passou por mim como uma lufada de vento. Mas o conselho, "mantenha o foco", me ficou na mente, como se a frase tivesse sido dita exatamente para que eu a ouvisse.
Alguns dias depois, uma amiga manda pela internet um teste de personalidade de orientação yunguiana. Resultado do meu perfil: ENPF - extroversão, intuição, feeling, percepção. Ao fim, uma sugestão de oração: "Senhor, ajude-me a ter mais foco - veja, um passarinho! - nas coisas que eu faço."

Friday, March 09, 2007

8 de março

De manhã, lamentei meu distanciamento das ações feministas e tratei com o marido assuntos da Fazenda familiar.
No meio da tarde, enquanto comprava um presente para minha empregada, contei às vendedoras sobre minha participação no movimento.
- Éramos um pequeno grupo e, mesmo assim, inscrevemos o feminismo na história do povo carioca.
- Ah...Viu só? - disse uma moça para a outra.
De volta ao Flamengo, no ônibus, carregada de bugigangas da Casa e Vídeo, observei com certa inveja uma velha prostituta que passeava na Praça do Lido, levando uma rosa vermelha magricela recebida no caixa da padaria... Homenagem pelo Dia Comercial da Mulher, ops! pelo Dia Internacional da Mulher.

Friday, March 02, 2007

"Cheiros Nus"


senta aqui do meu lado.
pega um copo, gelo,
o uísque está na mesa.
bem...
agora faz um instantinho de silêncio:
deixa sair esse ranço de cidade,
sociedade, compromissos.
um instante só e a bruma deixa teus olhos.
olha agora comigo,
ouve comigo,
percebe esse nada?
esse silêncio,
esse vento mudo e triste?
olha aquela árvore grande e escura
quieta no vale perto das pedras.
sente a calma de tudo,
vê o grande, o largo,
não diz nada nem deixa que eu fale.
vê apenas. ouve e sente.
percebe na pele a vida em volta.

o cheiro...
sente o cheiro desses cheiros todos,
desses verdes todos,
de tua vida toda.
acende um cigarro:
repara que nem a fumaça tem pressa
e o bonito não fala, se mostra apenas.
agora, bem devagarinho
tira teu coração do peito
e mostra isso tudo a ele.

(Emanuel Côrtes)

Thursday, January 18, 2007

Meus mares

Ultimamente tem sido assim: basta sentir o cheiro bom da maresia para que eu tenha satisfeito o meu desejo de mar. Não é mais necessário o toque dos pés na areia. Não mais faz falta a alegria de andar decidida em direção ao mergulho. Nem o sal, o sabor do sal a temperar a pele também já não é mais apelo para banho de mar. E aquela cor de bronze fruto de manhãs azuis de praia? Não mais resultaria em beleza. Hoje, me apego à maresia. Não por saudosismo. Mas porque o mar em minha vida é agora quase uma abstração, mera referência poética. Então, se não mais vou ao mar - porque não vou mesmo -, o seu perfume a mim vem e me reporta à sensorial lembrança de nosso convívio. Ergo um altar ornado de algas, conchas, búzios e flores. Queimo incensos de maresia e me transporto às improváveis vivências em mares atlânticos, mediterrâneos, mares de jangadas, de titaniques, mares tantos encantados e distantes de mim.

Saturday, December 30, 2006

Para Sophia

O mar voltou como tema, pretexto talvez
para novo emprego da palavra maresia em minha escrita.
E foram noites de insônia hoje compreendidas como premonição
de meu encontro com a poeta Sophia de Mello Breyner Andresen.
Quando noutro dia escrevi algo sobre mar e ventanias
eu não sabia, sinceramente, nada sabia sobre a obra de Sophia.
Não sabia, por exemplo, que ela havia escrito:

“Mar,
metade da minha alma e feita de maresia
.”

Não fosse a mente sempre aturdida de pensamentos e vontade de escrever,
hoje eu dormiria de consciência tranqüila.
Não, não cometi o delito de ter me apropriado da poética de Sophia.
Mas, algo estranho aconteceu e um desejo de mar assim feito em palavras
conduziu-me por praias desertas, em noites de curiosa ansiedade,
como se alguma divindade me tivesse permitido contemplar,
com direito de poder olhar para trás ao voltar,
os luminosos corais de Sophia de Mello Breyner Andresen.

Wednesday, November 29, 2006

Infrutescências*

Banhar-se com sabonete de essência de figo.

Saborear figos com mel no café da manhã.

Sentir o perfume do vinho tinto naquele exato instante anterior ao ato de prová-lo.

Tomar chá de frutas cítricas, no sossego da serra, a las cinco de la tarde.

Recordar o perfume das jabuticabeiras do sítio onde feitas as primeiras descobertas da adolescência.

Caprichar no molho de limão galego que alegrará a salada verde.

Aliás, continuar a dieta nas terças-feiras.

Ver os seios crescerem sem saber o que fazer com eles.

De vez em quando, vestir-se em tons de mamão papaia.

Acordar com vontade de abrir os olhos e com alguma alegria no peito, o bastante para perceber as infrutescências da vida.

* palavra descoberta nas explicações do sachê do chá, num domingo, fim de tarde, pouco antes de ver “Volver”, do Pedro Almodovar.

Monday, November 20, 2006

Mitocôndrias

Se a comunicação é tudo, se “quem não se comunica se trumbica”, preciso fazer contato urgente entre mim e minhas mitocôndrias. Em mais de 60 anos, nunca me dei conta da existência das mitocôndrias e da importância delas na vida dos animais, nós incluídos. Pode ser que eu tenha faltado à aula de biologia no dia em que o professor ensinou mitocôndrias. Ou, então, eu lá estava e enquanto ele falava, eu delirava com o príncipe encantado que, afinal, nunca me apareceu.
Mas, por sorte, temos o Dr. Drauzio Varella para nos explicar como só ele sabe que quando comemos demais, as mitocôndrias, coitadas, trabalham demais e do trabalho delas resulta a produção dos radicais livres, nossos inimigos, na medida em que são agentes do envelhecimento. Se bem entendi, o ato de comer sempre desencadeia o trabalho das mitocôndrias. Se comemos pouco, elas trabalham em paz e, na paz, não soltam os radicais livres em exércitos ameaçadores. Se metemos o pé na jaca, elas são obrigadas a acelerar o ritmo e, em contrapartida, aumentam a produção dos tais radicais que, na programação biológica, são livres para acabar com a saúde da gente. Em resumo, o Dr. Drauzio adverte: quem come mais do que pode, envelhece mais cedo, fica doente mais cedo. E agora, depois desta revelação, o ato de radicalizar na liberdade de comer passa a acarretar também a culpa pelo sacrifício imposto às laboriosas mitocôndrias. Bem, das culpas, a menor. Foi muito bom saber que liberar geral com a comida afeta as pobres mitocôndrias, obriga-as a trabalhar em regime de estresse, praticando ato de violência contra elas. Melhor ainda foi saber que as mitocôndrias não são bobas e se vingam da tirania da gula, soltando os cachorros na praça, os tais radicais livres que detonam a vitalidade do carente que faz de conta que a comida traz felicidade.
Dr. Drauzio, muito obrigada!

Monday, October 30, 2006

Sem precisões


Sem nenhuma convicção, você vai acordando e escuta ao longe uma gargalhada. Neste instante se dá conta de que ainda está neste mundo e do quão esquisito é o ser humano. Pense no quanto é estranha a gargalhada! Mais estranha ainda é esta palavra que em nossa língua nomeia o ato, com raiz proveniente de gargarejo, ou melhor, do som de gargarejar. A gargalhada é mais antiga do que o ato consciente de gargarejar para limpar a voz ou a garganta. Então, depois de tanto gargalhar, o ancestral português gargarejou e chamou de gargalhada o ato de morrer de rir dos outros ou de si mesmo (algo, aliás, bastante recomendável). Tudo esquisitice! Mas, esquisitice mor é acordar pensando nestas coisas só porque se ouviu uma gargalhada perdida na manhã de um certo domingo em que se tem de sair para eleger o Presidente da República.
Não desanime. Você está obrigado a acordar porque viver é preciso. Navegar é que não deve ser preciso. Se você resolve conduzir a vida com muita precisão corre o risco de asfixiá-la. Tome cuidado com as rotinas e com as obrigatoriedades, formas de precisão. Tome cuidado com as manias e principalmente com tudo que lhe seja imposto com rigor e determinação.
O voto é obrigatório. Como fazer, então, se há restrições a todos os candidatos? O problema reside na obrigatoriedade de votar, ou seja, na precisão, na exatidão de conduta cívica que lhe é exigida. Absurda é a lei que dá peso idêntico ao voto em branco e ao voto nulo. Se o voto é obrigatório, o nulo deveria ser considerado uma opção. E, assim sendo, os votos nulos não seriam deduzidos para a obtenção dos votos válidos. Deduzir-se-iam tão somente os brancos. Este seria o critério mais respeitoso à liberdade de cidadania.
Mas, o tema aqui não era a cidadania nem era o voto. Ou era? O tema era a gargalhada? Era o ser humano? Era a rigidez das precisões? Sei lá... O tema é sempre a vida, incluídas a cidadania, a estupidez, as precisões... Incluídos o gargarejo e a gargalhada. O tema pode ser toda sorte de condutas inventadas pelo homem. Tomar remédio para dormir e para acordar, pensar de forma binária, eleger líderes, mandar, obedecer, bajular, criar regras e a mania de seguí-las com renitente rigidez.
Quem será mais sábio? O velho que se confina na rotina e se ajusta no seu lugar, seguindo os padrões sociais exigíveis ou o velho (mais provavelmente a velha) que, no alheamento da demência, se rebela, se nega a tomar banho, repele a lavanda pós-banho e pede urgência para o juízo final?
Oh, que falta nos faz uma natural predisposição para a liberdade! Que falta nos faz vocação inata para nos reinventar, assim como natural, embora esquisito, é o ato incontrolável de gargalhar.

Friday, October 27, 2006

"Mareguia"


Não seria nada mal voltar a morar no Arpoador.
Porque o mar do Arpoador é mais bacana que os outros.
É mais sábio, mais solene e acolhedor.

No mar do Arpoador não sou banhista
como os que se afogam em dores e quebrantos.
Lá vou de corpo e alma e se pudesse todo dia.
Um mergulho só e pronto: o mar sabe todo o meu pranto.

Porque em linguagem telepática me cconfesso.
E o mar me acolhe e me benze com divinas maresias.
E me ouve e é meu guia.
E a mim me explica, me alforria!
É meu pai, minha alegria.

Thursday, October 19, 2006

Um poema de Adélia Prado


FLUÊNCIA

Eu fiz um livro, ma oh, meu Deus,
não perdi a poesia.
Hoje depois da festa,
quando me levantei para fazer café,
uma densa neblina acinzentava os pastos,
as casa, as pessoa com embrulho de pão.
O fio indesmanchável da vida tecia seu curso.
Persistindo, a necessidade dos relógios,
dos descongestionantes nasais.
Meu livro sobre a mesa contraponteava exato
com os pardais, os urinóis pela metade,
o antigo e intenso desejar de um verso.
O relógio bateu sem assustar os farelos sobre a mesa.
Como antes, graças a Deus.